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Não
nasci artista, mas a arte se impôs. Comecei a vida profissional
percorrendo as trilhas das ciências exatas, nas quais
a lógica e a racionalidade sobrepõem-se, dominam
e controlam a emoção, o arrebatamento da aventura.
Tornei-me engenheiro.
Mas
as artes plásticas, sedutoras, envolventes, seguiam-me
nas trilhas. De tempos em tempos, apertavam o cerco. A engenharia,
ligeira, defendia-me. Lembrava-me das responsabilidades profissionais
da vida toda construída e ainda à construir.
Eu contemplava as tintas e a tela em branco, mas não
cedia.
Em meados de 1994, entreguei-me,
de vez. Vigorosamente. Com a mania de engenheiro, pensei atribuir
o arrebatamento final ao efeito mola: quando se comprime uma
mola até o seu limite estático, cria-se tal
potencial de energia que, ao ser liberada, salta com vigor.
A engenharia considerou cumprida a sua missão. Deixou
de ser uma barreira. A arte, ela própria, emocionada,
me acolhia de braços abertos. Aquele relacionamento
longo e discreto, naquela hora, deixou de ser um simples namoro
para se tornar um compromisso sem volta, um compromisso de
espírito, de alma!
Curioso, passei a observar
o chamado meio artístico, o mundo das artes plásticas
fora das oficinas de trabalho. Portava-me como um observador
neutro, sem compromissos com o ambiente. Conclui: as nossas
artes plásticas estão caminhando em círculos.
Caminham, gastam energia e não saem do lugar. Não
avançam. E o que é pior, alienam a sua força
de produção que é o artista. Naquela
hora decidi minha opção por um caminho diferente:
UM
CAMINHO DIFERENTE A SEGUIR
Anunciam-se
exposições de artes plásticas em folders.
Por mala direta. Notas em seções especializadas
da mídia local. O resultado é desestimulante.
Nem se fale da freqüência, escassa, aos salões.
Oitenta por cento da freqüência pertencem às
pessoas do próprio meio - os artistas e outros ligados
à área. Os amigos, parentes e amigos dos parentes
que comparecem para prestigiar o artista entram com 15 por
cento. O restante representa o público desconhecido,
aquelas pessoas que marcam presença por interesse de
fato pela arte; ou curiosos que possam vir a ser apreciadores.
Esses cinco por cento representam o pequeno mundo de consumidores
em potencial. Pequeno, mas o público mais expressivo,
capaz de divulgar e expandir a arte.
O
que afasta os consumidores, efetivos ou potenciais, dos salões?
O que impede a plena realização das exposições
de artes plásticas? Entendo que uma mostra somente
se realiza quando aquela pessoa que foi até lá
se interessa por uma peça, a adquire e a leva para
sua casa ou local de trabalho. Então, a expõe
a um novo público. É a divulgação
completa, efetiva, do trabalho do artista.
O
que nos falta é romper o círculo no qual desfilam
as procissões das artes plásticas, abrir-lhes
os horizontes. Pelo menos, transformar o círculo numa
espiral ascendente, capaz de impulsionar para o alto; criar
e atrair público; criar demanda; tornar fecunda e aperfeiçoada
a produção do artista.
Comercializar.
Sim, comercializar a produção de arte, para
valorizar o artista, permitir-lhe a dedicação
plena ao ofício. Valorizar e desenvolver a arte como
um todo. Isso faz sentido, não tenho dúvida.
Retirar as procissões dos círculos em que se
meteram.
O
que é mais triste do que ver o artista sem produzir
porque não tem meios de acesso a um tubo de tinta,
quando precisa de pelo menos 10? Já ouvi está
queixa de muitos. Com a velha mania de engenheiro, não
posso imaginar uma construção erguida, por economia
forçada, com menos ferro e cimento que deveria ter.
O resultado seria o desastre. E como se sentiria o artista
cuja obra exigisse economia de materiais por falta de dinheiro?
Ora,
o artista não pode fazer voto de probeza nem esperar
a ação assistencial de terceiros. Não
é digno. Por isso, é preciso mudar a nossa visão
de mercado. Sem trair a arte, ser agressivo na comercialização
da produção. Profissionalizar-se. Entregar sua
cota ao desenvolvimento geral da arte. E por falar em traição,
fiquemos tranqüilos. A arte, quando é boa, resiste.
Nem pode o artista considerar-se
uma divindade em seu Olimpo particular, talvez o seu atelier.
Aceitar a falta de interesse de nossos contemporâneos
porque - quem sabe... - o futuro pode resgatar nossa obra
do esquecimento. Isso também não é digno.
Acreditem.
Há um bom potencial de mercado para as artes plásticas.
Só que está adormecido ou desmotivado. Nunca
é demais lembrar a existência da lei de incentivo
à cultura, bem administrada pelo Ministério
da Cultura. Não vacilei em valer-me desta lei no projeto
"Toda Parede Merece um Quadro", em andamento desde
Abril de 1996.
É
um projeto cuja meta é oferecer ao chamado grande público
a oportunidade de acesso às artes plásticas,
permitindo-lhe a aquisição de peças de
forma acessível, sem desvalorizar o produto artístico
e o seu preço de mercado.
Indago-me se temos artistas e produção suficientes
para atender, em curto prazo, ao mercado disponível,
para suprir as paredes vazias de obras de arte por todo este
país.
Quem
não deseja colocar um quadro de valor artístico
numa de suas paredes? É uma forma de valorização
social da pessoa, de aperfeiçoamento cultural. Todos
sabem disso. Mas por que não compram os quadros? Por
que não vão às mostras de arte? Por que
os artistas fracassam nas tentativas de atraí-los para
seus vernissages?
Bem,
não vamos retornar ao caminho do círculo das
procissões... Mas nunca é demais alertar os
nossos artistas, sugerir-lhes a coragem de encarar o mercado,
a ousadia criativa e a humildade de entender o seu papel cultural
na sociedade. A quem serve a arte sem público?
Fale
com o artista.
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