JUSTIÇA E JUSTEZA
135cm X 110cm
   

  

HYPOTHESIS
110cm X 80cm

EXCLUÍDO II
110cm X 100cm

MEDITAÇÃO
90cm X 80cm

Não nasci artista, mas a arte se impôs. Comecei a vida profissional percorrendo as trilhas das ciências exatas, nas quais a lógica e a racionalidade sobrepõem-se, dominam e controlam a emoção, o arrebatamento da aventura. Tornei-me engenheiro.
Mas as artes plásticas, sedutoras, envolventes, seguiam-me nas trilhas. De tempos em tempos, apertavam o cerco. A engenharia, ligeira, defendia-me. Lembrava-me das responsabilidades profissionais da vida toda construída e ainda à construir. Eu contemplava as tintas e a tela em branco, mas não cedia.
Em meados de 1994, entreguei-me, de vez. Vigorosamente. Com a mania de engenheiro, pensei atribuir o arrebatamento final ao efeito mola: quando se comprime uma mola até o seu limite estático, cria-se tal potencial de energia que, ao ser liberada, salta com vigor. A engenharia considerou cumprida a sua missão. Deixou de ser uma barreira. A arte, ela própria, emocionada, me acolhia de braços abertos. Aquele relacionamento longo e discreto, naquela hora, deixou de ser um simples namoro para se tornar um compromisso sem volta, um compromisso de espírito, de alma!
Curioso, passei a observar o chamado meio artístico, o mundo das artes plásticas fora das oficinas de trabalho. Portava-me como um observador neutro, sem compromissos com o ambiente. Conclui: as nossas artes plásticas estão caminhando em círculos. Caminham, gastam energia e não saem do lugar. Não avançam. E o que é pior, alienam a sua força de produção que é o artista. Naquela hora decidi minha opção por um caminho diferente:

                                UM CAMINHO DIFERENTE A SEGUIR

Anunciam-se exposições de artes plásticas em folders. Por mala direta. Notas em seções especializadas da mídia local. O resultado é desestimulante. Nem se fale da freqüência, escassa, aos salões. Oitenta por cento da freqüência pertencem às pessoas do próprio meio - os artistas e outros ligados à área. Os amigos, parentes e amigos dos parentes que comparecem para prestigiar o artista entram com 15 por cento. O restante representa o público desconhecido, aquelas pessoas que marcam presença por interesse de fato pela arte; ou curiosos que possam vir a ser apreciadores. Esses cinco por cento representam o pequeno mundo de consumidores em potencial. Pequeno, mas o público mais expressivo, capaz de divulgar e expandir a arte.
O que afasta os consumidores, efetivos ou potenciais, dos salões? O que impede a plena realização das exposições de artes plásticas? Entendo que uma mostra somente se realiza quando aquela pessoa que foi até lá se interessa por uma peça, a adquire e a leva para sua casa ou local de trabalho. Então, a expõe a um novo público. É a divulgação completa, efetiva, do trabalho do artista.
O que nos falta é romper o círculo no qual desfilam as procissões das artes plásticas, abrir-lhes os horizontes. Pelo menos, transformar o círculo numa espiral ascendente, capaz de impulsionar para o alto; criar e atrair público; criar demanda; tornar fecunda e aperfeiçoada a produção do artista.
Comercializar. Sim, comercializar a produção de arte, para valorizar o artista, permitir-lhe a dedicação plena ao ofício. Valorizar e desenvolver a arte como um todo. Isso faz sentido, não tenho dúvida. Retirar as procissões dos círculos em que se meteram.
O que é mais triste do que ver o artista sem produzir porque não tem meios de acesso a um tubo de tinta, quando precisa de pelo menos 10? Já ouvi está queixa de muitos. Com a velha mania de engenheiro, não posso imaginar uma construção erguida, por economia forçada, com menos ferro e cimento que deveria ter. O resultado seria o desastre. E como se sentiria o artista cuja obra exigisse economia de materiais por falta de dinheiro?
Ora, o artista não pode fazer voto de probeza nem esperar a ação assistencial de terceiros. Não é digno. Por isso, é preciso mudar a nossa visão de mercado. Sem trair a arte, ser agressivo na comercialização da produção. Profissionalizar-se. Entregar sua cota ao desenvolvimento geral da arte. E por falar em traição, fiquemos tranqüilos. A arte, quando é boa, resiste.
Nem pode o artista considerar-se uma divindade em seu Olimpo particular, talvez o seu atelier. Aceitar a falta de interesse de nossos contemporâneos porque - quem sabe... - o futuro pode resgatar nossa obra do esquecimento. Isso também não é digno.
Acreditem. Há um bom potencial de mercado para as artes plásticas. Só que está adormecido ou desmotivado. Nunca é demais lembrar a existência da lei de incentivo à cultura, bem administrada pelo Ministério da Cultura. Não vacilei em valer-me desta lei no projeto "Toda Parede Merece um Quadro", em andamento desde Abril de 1996.
É um projeto cuja meta é oferecer ao chamado grande público a oportunidade de acesso às artes plásticas, permitindo-lhe a aquisição de peças de forma acessível, sem desvalorizar o produto artístico e o seu preço de mercado.
Indago-me se temos artistas e produção suficientes para atender, em curto prazo, ao mercado disponível, para suprir as paredes vazias de obras de arte por todo este país.
Quem não deseja colocar um quadro de valor artístico numa de suas paredes? É uma forma de valorização social da pessoa, de aperfeiçoamento cultural. Todos sabem disso. Mas por que não compram os quadros? Por que não vão às mostras de arte? Por que os artistas fracassam nas tentativas de atraí-los para seus vernissages?
Bem, não vamos retornar ao caminho do círculo das procissões... Mas nunca é demais alertar os nossos artistas, sugerir-lhes a coragem de encarar o mercado, a ousadia criativa e a humildade de entender o seu papel cultural na sociedade. A quem serve a arte sem público?

Fale com o artista.